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21/10/2018
Autor: Antonio Penteado Mendonça
Revolução silenciosa

Ao longo dos últimos anos o setor de seguros passou por uma profunda revolução. Mudou o perfil das companhias, mudou o perfil dos riscos, mudou a forma de relacionamento, mudou o perfil dos executivos, mudou o foco das seguradoras.

No entanto, foi uma revolução silenciosa. Não chamou a atenção, muito embora tenha redesenhado companhias e redefinido estratégias. Curiosamente, a análise dos rankings do setor não mostra a profundidade das mudanças, o que leva a certeza de que as estatísticas são fundamentais para a compreensão do que acontece, ao mesmo tempo que não detectam fatos relevantes.

Não é possível dizer que isto foi mais importante do que aquilo, então é necessário entender as diferentes alterações dentro de um contexto global, no qual todas as peças são importantes, independentemente de seu tamanho.

As seguradoras ligadas aos grandes conglomerados financeiros se consolidaram como os grandes players nacionais e ocupam posições de destaque entre os maiores faturamentos do setor. Todavia, isto não significa que o desenho deste faturamento seja o mesmo de alguns anos atrás. Ao contrário, previdência complementar aberta e planos de saúde privados são essenciais para explicar a posição de mais de uma seguradora, enquanto no geral, o seguro de veículos, ainda importante, em função da crise perdeu participação relativa.

Com mais de um trilhão e duzentos bilhões de reais em reservas o setor de seguros se tornou um dos grandes administradores de recursos do país. Boa parte deles é proveniente das operações de previdência complementar aberta, representadas pelos PGBL’s e VGBL’s que ao longo das últimas décadas se transforaram nos principais investimentos de longo prazo.

A leitura do ranking das operadoras de planos de previdência complementar aberta não deixa dúvidas, a operação está em sua maior parte sob controle das empresas ligadas aos conglomerados financeiros. É a consequência lógica da capilaridade das agências bancárias e da confiança que marcas nacionalmente conhecidas dão a produtos de maturação de dez anos ou mais.

De outro lado, os planos de saúde privados, parte dos quais é administrado por seguradoras, geram receitas maiores do que o faturamento somado de todo o setor de seguros.

Sua ordem de grandeza é maior do que os recursos destinados a saúde pública pelo governo brasileiro. E, no entanto, os planos de saúde privados atendem apenas ¼ da população. Mas estão longe de viverem dias confortáveis, como acontece nos Estados Unidos ou na Europa, onde as empresas ligadas a saúde estão entre as mais valorizadas em processos de aquisição e fusão, em função do faturamento e do potencial de crescimento.

Os valores alcançados em recentes aberturas de capitais de operadoras de saúde brasileiras mostram que o mercado acredita que em algum momento não muito distante acontecerá a mudança das regras e que o setor terá dias mais felizes.  Mas afirmar que isto é uma certeza é temerário, até porque não há nenhum movimento oficial mais expressivo neste sentido.

Quanto aos seguros tradicionais, entre eles os seguros de veículos, os seguros de vida, os seguros individuais e os seguros empresariais, as mudanças também estão em curso. Uma comparação de cinco anos atrás com o que acontece hoje, mostrará nitidamente o redesenho de várias operações, sendo que as que mais chamam atenção são as que envolvem as carteiras de grandes riscos.

A consequência deste movimento é a redução do número de companhias interessadas em segurar os grandes riscos empresariais e a concentração destes seguros nas mãos de grupos internacionais.

Aliás, o crescimento da presença de companhias internacionais pode ser visto em todos os segmentos. Dos seguros de vida, aos seguros de automóveis, dos riscos financeiros aos seguros de responsabilidade civil, sua presença tem se acentuado, tanto pela compra do controle de seguradoras nacionais, como pela abertura de novas empresas diretamente controladas por capital estrangeiro.

Neste momento, os impactos da crise brasileira ainda estão afetando o funcionamento do mercado, mas, assim que o Brasil retomar o crescimento, o setor de seguros deverá crescer exponencialmente, gerando trabalho, riquezas e uma proteção mais adequada ao patrimônio nacional.