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17/07/2018
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Nova safra de gestores independentes começa a oferecer previdência

 

Nova safra de gestores independentes começa a oferecer previdência

 

O Valor Econômico relata que, numa seara dominada por grandes conglomerados financeiros, que em geral atuam nas três pontas mais visíveis do negócio de previdência aberta complementar — seguradora, gestão e distribuição —, começam a amadurecer iniciativas de casas independentes, enquanto novos nomes chegam ao mercado. Gestoras como Adam, Verde, Canvas, Ibiuna, Apex, Kondor e Leblon já testaram essas águas e agora surge uma outra safra de fundos que começa a engrossar a lista de opções fora dos bancos, de gestoras como SPX, Truxt Investimentos, Claritas, Mauá, Alaska, Atena, Bogari, Pacífico e Garde. O casamento mais comum tem sido com seguradoras menores como SulAmérica e Icatu ou estrangeiras como a Zurich.

 

Mais do que a legislação, que trouxe flexibilidade à gestão de fundos de previdência aberta — possibilitando, por exemplo, carteiras com 70% de ações no varejo e até 100% para o público qualificado, além de cobrança de taxa de performance —, a distribuição mais democrática, por meio de plataformas de investimentos e corretoras digitais, está por trás desse movimento, afirma Felipe Bottino, diretor de previdência da Icatu.

 

Se antes o mercado se alimentava apenas de fundos mais conservadores, atolados de títulos públicos, agora o investidor tem à mão produtos das mais diversas cores, emulando carteiras que já caíram no gosto do investidor no universo dos multimercados ou de ações. O corte sensível da Selic de outubro de 2016 para cá, de 14,25% para 6,5% ao ano, é o componente macro que torna essa dinâmica “irreversível”, diz Bottino.

Ele conta que só na Icatu já são 60 gestoras parceiras com um volume de mais de R$ 10 bilhões, metade do bolo da seguradora em previdência. “A lógica se inverteu, praticamente todas as assets consolidadas têm uma opção em previdência”, afirma, listando fundos com estratégia macro, crédito privado ou de arbitragem com ações, conhecidos como “long-short”.

 

A distribuição de fundos de terceiros, que até pouco tempo atrás era um tabu na plataforma dos grandes bancos, agora começa a incluir também a previdência. “Há 15, 20 anos os bancos lutam contra, vendendo de forma tímida, mas nada mais forte que o tempo e a comprovação de resultados”, afirma o executivo da Icatu.

 

A SPX, que começou a distribuir uma versão de previdência no Itaú em novembro, reuniu de lá para cá R$ 1,68 bilhão e a carteira que passou a receber captações de outros canais de distribuição em fevereiro já tem outros R$ 285,7 milhões.

 

Alguns dos que chegaram mais cedo ao segmento já conseguiram atingir patrimônio considerável. Esse é o caso da Verde Asset Management, de Luis Stuhlberger, que começou a distribuir a sua primeira carteira de previdência em dezembro de 2015 em parceria com a Icatu e outra seis meses depois pelo Itaú — a gestora reunia ao fim de maio R$ 5,98 bilhões. A Adam Capital, de Márcio Appel, que veio um ano depois, tinha R$ 2,94 bilhões em previdência.

 

“A gente nunca tinha imaginado que ia gerir dinheiro de previdência, era um mercado muito restrito aos bancos, com produtos mais simples, de renda fixa pura, não corriam risco nenhum, compravam título público e davam [de retorno] a Selic”, diz Luiz Godinho, responsável pela área de relacionamento com investidores da Verde Asset. Com a flexibilização das regras e depois a dinâmica macro que permitiu o corte de juros, esse foi um segmento que passou a fazer sentido, pois casava perfeitamente com o viés de longuíssimo prazo da gestora, prossegue.

 

Em pouco mais de dois anos são cerca de 30 mil cotistas, número de investidores que o fundo macro original não chegou a reunir nem quando fechou para captação em 2006, após 20 anos, aponta Godinho. A gestora também passou a atingir um público diferente do que estava acostumada, no private banking, chegando ao varejo.

 

“O segmento de multimercados está sofrendo um pouco, como todas as casas. Mas o futuro da Verde passa por aí, de crescer mais em produtos de previdência.” Godinho estima que a casa tenha capacidade para ter na sua versão de previdência do fundo multimercado cerca de R$ 10 bilhões à luz da legislação atual — se houver novas flexibilização, isso pode ser revisto. O executivo antecipa haver conversas com parceiros para estudar se vale também ter uma carteira de ações replicando a estratégia de renda variável. “No mundo inteiro, bolsa é uma estratégia de longo prazo”, diz. “Em tese, bolsa no Brasil também pode ser um produto de previdência.”

 

A Ibiuna foi, em 2013, uma das primeiras a criar uma carteira de previdência replicando, dentro das limitações do segmento, o fundo macro da casa (conhecido como Hedge), junto com a Icatu, e agora começou a distribuir uma versão do seu “long biased” numa parceria com a SulAmérica. O portfólio calibra o tamanho do risco em bolsa conforme o cenário e nos últimos três anos acumula retorno médio anual de 19,4%, segundo a Morningstar.

 

Mesmo antes de a legislação se tornar mais amigável, Caio Santos, sócio e responsável pela área de relacionamento com investidores da gestora fundada pelos ex-Banco Central Mário Torós e Rodrigo Azevedo, diz que a crença de que conseguiria traduzir de forma eficiente a visão do fundo macro levou a casa a ser uma das pioneiras nessa área.

 

“Não é uma adaptação, num horizonte diferente, de uma estratégia que não fazemos, é a mesma coisa. Não pode fazer algumas coisas, mas pode uma série de outras e assim consegue replicar a nossa estratégia”, diz. “À medida que a legislação se tornou menos restritiva, o macro [de previdência] se aproximou mais do fundo Hedge.”

 

Com mais de R$ 200 milhões em previdência e 14 mil cotistas só com a Icatu, Santos acrescenta que há um mercado gigante a ser explorado pelas gestoras independentes que ainda ocupam uma ínfima parte do segmento. Dos R$ 751,5 bilhões em previdência aberta ao fim de maio, os cinco maiores bancos detinham 90% do mercado, sem considerar cerca de R$ 17,5 bilhões da Kinea, gestora de fundos alternativos do Itaú , segundo dados da Anbima.

 

Para Santos, o segmento ainda vai viver o mesmo movimento observado nos multimercados, com uma maior predominância das casas não ligadas a bancos. O long biased da Ibiuna chegou com opções em VGBL e PGBL e começou a ser distribuído neste mês pela XP Investimentos. Em breve estará disponível em outras plataformas de investimentos, como Órama, Modalmais, BTG Digital e Genial.

 

A Truxt Investimentos, fundada pelo ex-ARX José Alberto Tovar, esperou a nova legislação começar a valer para colocar suas versões de previdência na rua e vai estrear com duas estratégias: uma com 100% ações e outra macro. “É óbvio que num ambiente de juros mais baixos se procura gestores que possam gerar retornos mais atraentes. O investidor de previdência é de longo prazo e tem gestores que podem ter mais volatilidade, mas com perspectivas de gerar resultados melhores também”, diz, acrescentando que ainda tem o apelo fiscal.

 

A tabela decrescente pode, por exemplo, baixar o imposto a 10% após dez anos e sem a incidência do come-cotas, o imposto semestral dos fundos de renda fixa e multimercados tradicionais, trazendo o grande benefício do diferimento.

 

O executivo prefere não adiantar detalhes, mas, segundo o Valor apurou, a carteira de ações entra primeiro no Itaú, com a seguradora, administração e distribuição do banco, e no private do Credit Suisse. O macro deve ser distribuído pela XP Investimentos e também pelo Bradesco.

 

Um pouco na contramão de outras gestoras independentes, a Claritas começou a distribuir um multimercado de previdência de linhagem mais conservadora, o Claritas Advisory, que tem como meta de rentabilidade um adicional de 1% a 1,5% em relação ao CDI e volatilidade de 1%.

 

“Esse é um segmento que tem crescido bastante do lado das gestoras independentes, mas a gente observou uma série de fundos com volatilidade bastante elevada, é possível mapear pela performance em momentos de estresse”, diz Ernesto Leme, diretor comercial da Claritas. “Nós optamos por ficar na ponta menos agressiva do mercado por acreditar que é mais apropriado quando o objetivo é a previdência.”

 

Sob gestão de Damont Carvalho, hoje à frente dos fundos macro Institucional e Hedge da Claritas, a nova carteira vai ser um meio termo desses dois portfólios, fazendo um mix com operações de renda fixa, derivativos, moedas e um pedaço pequeno em bolsa que pode ser via índice ou alocação direta se houver convicção sobre determinado ativo.